quinta-feira, 23 de junho de 2011

A semiótica na relação entre Harry Potter e a ordem da Fênix e a Ditadura Militar




RESUMO
Como relatar e mostrar para o contexto cultural das crianças e adolescentes a compreensão da conjuntura de uma sociedade? Como ela se divide, organiza e desenvolve-se? O desafio hoje é trazer para eles a compreensão dessa concepção através das sua forma de linguagem e de suas metáforas: o bem e o mal, o justo e o injusto, o certo e o errado, o herói e o bandido e toda a dualiadade que compõem os estereótipos que moldam uma sociedade.  Elementos esses, que surgem na forma de signos e metáforas nos contos de fantasia, sejam nos clássicos ou nos contemporâneos. Usaremos como metodologia os estudos semióticos de Santaella que contextualiza os signos como sinônimos, que buscam através das suas formulações lógicas trazer a abstração máxima. Por isso o objetivo desse texto é trazer semelhanças e as refeerencias que o quinto livro da obra Harry Potter e a Ordem da Fênix fazem com o período ditatorial através da abstração da magia contida no enredo, gerando pontos metafóricos capazes de fazer essa ponte de ligação com um regime político que existe ou já existiu em qualquer sociedade.  

INTRODUÇÃO
Dentro do cenário literário articulado ao cinematográfico os novos contos contextualizam novas dimensões de abordagem social. Harry Potter é um exemplo que deve ser citado. O jovem que passa todo período de adolescência em uma escola de magia e bruxaria, enfrenta assassinos frios e tem o desafio de salvar o mundo tanto dos bruxos como dos trouxas da arte das trevas. Traz consigo os clássicos estereótipos que existiam nas obras clássicas, a ausência dos pais, a luta contra o vilão que o persegue em todos os livros que compõem a obra completa, mas traz também novas contextualizações como os medos, as inseguranças, o assédio, mas carrega consigo a bravura e a coragem sempre presentes em todos os contos clássicos. O foco deste trabalho será no filme adaptado do quinto livro Harry Potter e a Ordem da Fênix, contextualizando os signos que moldam dentro da escola de magia e bruxaria de Hogwarts um sistema opressor e ditatorial onde podemos comparar em alguns pontos a tentativa de ir além de um simples conto: de uma forma mágica o enredo trás esses signos para apresentar momentos que já se fizeram presentes em diversas sociedades.  Para mostrar os aspectos que fazem essa semelhança iremos abordar três pontos chaves: O primeiro será a interferência do governo da metodologia didática da escola de magia e bruxaria. Já o segundo é a presença dos atos institucionais e em terceiro momento é a perseguição ao grupo de alunos que busca outras formas de aprendizagem, seguido da deposição do diretor Alvo Dumbledore. 

3. DESENVOLVIMENTO

3.1. O fenômeno Harry Potter e as referencias ao período ditatorial
Harry Potter e a Ordem da Fênix é a quinta adaptação da série literária dos sete livros que compõem a obra da inglesa J.K. Rowling. O fenômeno literário traz a descrição de cada ano escolar que Harry passa em Hogwarts, a escola de Magia e Bruxaria que prepara os jovens bruxos para o uso da magia. Essa adaptação é o principio do fim de toda a obra. Harry acaba de passar pelo primeiro embate físico com o temido bruxo das trevas e, a sociedade desacredita no reaparecimento do Lord Voldmort. Acreditam que Harry é apenas um adolescente perturbado, que passa a inventar uma história improvável para conquistar os holofotes e a glória. Essa idéia criada pela mídia – Profeta Diário -  e  impulsionada pelo governo, cultivavam uma  imagem destorcida de Harry e de Dumbledore, passando para a sociedade a ilusão de que a segurança prevalecia, e o governo estava controlando a ordem. Com isso, vários fatores passam a ser desencadeados como o controle da didática escolar, restrições nas organizações estudantis e no afastamento do diretor da escola, pois ele era um dos poucos que acreditavam que Lord Voldemort havia retornado e estava preparando-se para dominar a sociedade bruxa e trouxa. A direção da escola passa a ser exercida por uma Inquisidora Dolores Umbridge que passa a abolir ensinamentos de autodefesa que ocorriam na formação dos estudantes, assim como, jogos ou qualquer forma de expressão que pudesse gerar questionamento e reflexão. Atos institucionais foram impostos e o desrespeito a sua autoridade davam origem a punições. Harry juntamente com seus fiéis amigos Rony e Hermione, Harry passa a organizar um grupo de amigos onde ensinava praticas de autodefesa contra a arte das trevas. Nessa breve descrição podemos trazer diversos dignos que fazem referencia ao período ditatorial. 
A interferência do Governo da didática escolar o próprio controle do pensamento, um elemento que conforme SANTAELLA traz é um interpretante de controle social que também existia durante a ditadura militar. Um dos primeiros momentos que encontramos esses traços é no discurso que a então nova professora de Defesa Contra a Arte das Trevas faz na recepção aos alunos. Em seu discurso o primeiro signo que traz uma relação de significante trazendo já a interpretação do controle didático é dito nessas palavras: “O progresso pelo progresso não será encorajado. Vamos preservar o que deve ser preservado. Aperfeiçoar o que for possível aperfeiçoar e cortar práticas que devem ser proibidas.”
O sutil discurso da nova professora é o primeiro elemento da relação triádica que vai sendo construída no decorrer da narrativa. Desse modo, o discurso os elementos proferidos durante o discurso são uma série de signos que alertam para uma série de imposições que irão ser inseridas no ambiente didático. Diante disso Santaella afirma:

[...] falar em primeiro, dentro do contexto da semiótica peirceana, está diretamente ligado à fenomenologia, o que nos leva a identificar o primeiro como caráter da qualidade e possibilidade que correspondem à primeira categoria fenomenológica. (SANTAELLA, 2008)

Diante disso, percebemos que esses signos passam a ser compreendidos no momento em que as indicações da interferência do estado na educação são postas em prática, ou seja, no momento em que os signos passam a ser qualidades com significado real. Para isso SANTAELLA também afirma:
A noção de representação que a tríade semiótica expressa só é introduzida na fenomenologia quando chegamos à terceira categoria (terceiridade), a qual corresponde exatamente à noção de signo como relação triádica. Conclusão: a noção de signo já é, por natureza, triádica, isto é , só define na tríade, não podendo, portanto, ser identificada meramente com a primeira categoria, ou categoria de qualidade.

Para fazer uma comparação dessa perspectiva com aspectos presentes no período ditatorial vemos o controle social através da interferência na educação. Assim CORREIA (2011) traz presente o conceito de controle social como os mecanismo estabelecimento da ordem social, disciplinando a sociedade e submetendo os indivíduos a seguirem determinados padrões sociais e princípios morais. Assegurando a conformidade de comportamento dos indivíduos a um conjunto de regras e princípios prescritos e sancionados. Passamos a observar essa situação quando a nova professora passa ao cargo de Inquisidora, onde passa a sancionar regras onde todos devem seguir. Novas regras que vão desde não formar organizações estudantis, não ouvir músicas ou até andar pelos corredores da escola durante a noite. Pequenas imposições que não possibilitavam aos alunos se organizarem, conversarem ou procurarem formas de eliminar essas práticas. 
A educação sempre foi o carro chefe de qualquer modo de domínio social. Ela trabalha desde as gerações mais jovens até as mais adultas as formas de litura de fazer do mundo. Desse modo, percebe-se o trecho filme onde Umbridge é nomeada inquisidora o domínio mais evidente do Estado sob a educação, destacando nas manchetes do Jornal a educação sendo colocada a frente. Esse é um objeto que remete a um significado mais profundo dos signos que surgiram no inicio da narrativa, quando Umbridge ressalta que o progresso não será encorajado. As sansões e os atos institucionai referencias claras às sansões e imposições do governo militar no período ditatorial são objetos já em tríade que deixam o objeto claro do domínio governamental e da submissão dos estudantes da escola de magia e bruxaria. Desse modo, os signos do discurso passam a tomar forma em primeiridade nas saudações aos alunos que recém chegaram na escola, e já carregados com significado são configurados e não perdem seu teor de interpretação e significado no momento em que o discurso é colocado em prática. 

[...] Na forma ordenada do processo triádico, o interpretante será levado a ter uma relação com o objeto semelhante àquela que o signo em para com o mesmo objeto, ou seja: “a realção deve consistir de um poder do signo para determinar algum interpretante como sendo um signo do mesmo onjeto” Por mais que a cadeia semiótica se expanda, em signos- interpretante gerando dignos- interpretantes, o vínculo com o objeto nunca é perdido, uma vez que o objeto nunca e perdido, uma vez que o objeto é justamente aquilo que existe e resiste na semiose ou ação do signo. (SANTAELLA, 2008)

Assim pode-se fazer a leitura que Santaella traz da relação mediadora do signo entre o objeto e o interpretante. Desse modo, a ação lógica ou semiótica do objeto em destaque é sempre a ação de um signo, ou o modo lógico da ação de um objeto e, portanto, o modo de ação de um signo se dá por causação lógica. 

3.1.1. As organizações secretas
Na ditadura militar organizações secretas surgiram para tentar organizar-se e discutir e encontrar formas de derrubar o atual governo. Na narrativa cinematográfica os signos que remetem a construção dessa forma organizativa são evidentes. O descontentamento com a didática educacional, o sentimento de mãos amarradas e a própria inércia do governo frente a ascenção das trevas era evidente. Diante disso, os protagonistas resolvem se organizar e por em prática os conhecimentos obtidos nas diversas batalhas que Harry já havia passado. O grupo passa a ser formado e em uma sala secreta os alunos encontram-se para treinar diversos feitiços fundamentais para a autodefesa.  Esse grupo intitula-se como a armada de Dumbledore, um ícone que remete medo ao governo que suspeitava da formação de um exército de jovens bruxos para colocar Dumbledore no poder. Essa organização é um objeto que faz clara referencia as organizações clandestinas presentes no período ditatorial. Que organizavam-se, debatiam e procuravam formas de construir estratégias para reverter a situação política que o país havia assumido. 

A luta das esquerdas revolucionárias nos anos 1960 e 1970 pelo fim da ditadura não visava a restaurar a realidade do período anterior a 1964. Embora buscasse se legitimar na defesa da democracia, estava comprometida sim com a construção de um futuro radicalmente novo, no qual o sentido da democracia era outro. A construção da memória deste passado tem sido feita menos à luz dos valores que nortearam as lutas de então e mais em função do presente, dos anos 1980, quando a referência era a democracia - e não mais a revolução. Em jogo, a busca de legitimação, dando sentido ao passado e ao presente.  (Rollemberg, 2011)

A fantasia trazida na narrativa da série traz essa clara relação com as organizações clandestinas. Os jovens bruxos lutavam pela paz que havia sido conquistada pelos seus pais, quando no passado lutaram contra o bruxo das trevas e agora com seu reaparecimento era o momento que eles deveriam ser os atores que iriam garantir o domínio das forças do bem e não a das trevas. Essa percepção é trazida através dos símbolos icônicos que Santaella explica:
Toda percepção tem um caráter esquemático. Nunca percebemos mais do que uma seleção extremamente limitada dos aspectos formais daquilo que é percebido. Mesmo que a identidade material entre o objeto percebido e o modo como ele é percebido seja radicalmente distinta, há, contudo, uma comunhão na identidade formal de ambos.[...] o ingrediente icônico é justamente aquilo que dá suporte ao processo perceptivo, funcionando como substrato da ilusão, subjacente a toda percepção, de que o objeto, tal como percebido, é o próprio objeto.

 A organização obtém sucesso, até o momento em que a inquisidora interroga todos os participantes com a poção da verdade, uma substância que obrigava qualquer pessoa a relatar qualquer fato que fosse questionado. Esse é um signo que remete a tortura e transpõem posteriormente quando todos são punidos por fugirem das regras impostas. Essas características que surgem na narrativa fazem referencia a tortura praticada contra os militantes que lutavam contra a ditadura. Mesmo sendo mostrada de uma maneira muito sutil no filme essa referencia é uma das mais evidentes que surge desde o início, quando Harry questiona as práticas didáticas de Umbridge e é punido fisicamente por ter questionado as imposições da professora e automaticamente do governo. Desse modo, a narrativa trabalha com metáforas para comparar ou relacionar a práticas semelhantes ou a sistemas semelhantes. Frente a isso Santaella afirma: 

As metáforas fazem um paralelo entre o caráter representativo do signo com o caráter representativo de um possível objeto. Ou melhor, e o que é mais engenhoso na definição de Peirce, elas representam o caráter representativo de um signo e traçam um paralelismo com algo diverso. Caráter representativo refere-se àquilo que dá ao signo poder para representar algo diverso dele. É essa que as metáforas representam. Extraem tão-somente o caráter, o potencial representativo em nível de qualidade, de algo e fazem paralelo com alguma coisa diversa. Há sempre uma forte dose de mentalização e acionamento de significados nas metáforas, daí elas serem hipoícones de terceiridade.

Fazendo essa analise metafórica, podemos ver que toda a construção da narrativa da quinta obra do filme traz a descrição de um governo ditador, que busca mostrar domínio e controle da paz, da ordem e do progresso. Atitudes que passam a ser desenhadas no ambiente didático, pois temendo uma revolta dos próprios estudantes frente ao que estava por vir, mas que ele mesmo não queria admitir. Autoridade, supremacia e controle são dois aspectos descritos metaforicamente na construção da lógica do enredo que acontecem em meio a qualquer sociedade. Metáforas que a autora tenta transpor nas obras literárias e são construídas nos cinemas nas suas adaptações. São fábulas, fantasias contemporâneas carregadas de simbologias sociais contemporâneas. Assim vemos no filme a sequência gradativa das cenas, dos discursos, dos comportamentos que trazem claramente a construção do imaginário de qualquer sistema opressor, seja na forma da autoridade do governo, da indignação da sociedade ou da organização e rebeldia social. A literatura ou as adaptações cinematográficas do filme Harry Potter trazem esses conceitos para as novas gerações. Possibilitam através de uma rica descrição de detalhes a construção de um imaginário que pode-se assemelhar e relacionar com a realidade. 

CONCLUSÃO
O enredo pode ser considerado extremamente pobre se analisarmos a riqueza de palavras, mas é rico na descrição minuciosa dos detalhes e isso é vital para a construção das metáforas que remetem a possibilidade de relação com períodos políticos vividos no universo real. É um conjunto abstrato de signos, ícones e índices que em sua união possibilitam uma condição interpretante do conjuntos desses elementos que compõem a sequencia lógica da narrativa e ligam-se resultando na compreensão de uma situação real. Todo o conjunto da obra compõem um conjunto ainda maior de elementos que vão se ligando e irão ser resgatados no final da obra. Neste trabalho foram trazidos três pontos chaves que fazem referencia explicita ao regime político ditatorial, mas todo o conjunto da obra está imerso em elementos que indicam a essa relação.


REFERENCIAS BIBLIOGRAFICAS 

SANTAELLA, Lúcia. Teoria geral dos Signos: Como as linguagens significam as coisas. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

CORREIA, C.V. Maria. Controle Social. http://www.epsjv.fiocruz.br/ upload/d/Controle_Social_-_rec.pdf. Acesso em 15 mai. 2011.

1 comentários:

Jean Costella disse...

Muito boa a comparação, Parabéns! :)