quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sustentabilidade ou eco capitalismo?


A onda verde! Meio ambiente nunca esteve tão em alta nas pautas midiáticas, eleitorais e em todos os segmentos de relevância na sociedade, mas principalmente em meio às organizações.
O grande problema é que a sustentabilidade já se tornou modismo nesses âmbitos de discussão, é a agenda setting do momento e permanecerá sendo por um longo período.
O sistema capitalista neoliberalista prega a aquisição do lucro, o consumo desenfreado e consequentemente vai trazer a exploração dos recursos naturais  e a produção em larga escala de resíduos físicos. Dentro dessa lógica vem a discussão: como conciliar desenvolvimento econômico, mas manter praticas sustentáveis? Como promover crescimento  sem prejudicar o meio ambiente. Dentro deste viés nasce a discussão de se criar práticas sustentáveis de desenvolvimento. A partir disso a sustentabilidade torna-se pauta nos discursos organizacionais, contudo é principalmente nesse segmento que esta questão torna-se apenas uma discussão teórica e não prática, o que se desenvolve ali é um discurso ecocapitalista.
A grande preocupação institucional é a sua imagem, a sustentabilidade está sendo um prato cheio para as organizações realizarem programas que alavanquem o quesito de responsabilidade ambiental. Várias práticas adotadas como a revitalização de praças, a criação de programas de recuperação de áreas degradadas, reciclagem ou qualquer modelo que possa alavancar a imagem empresarial, mas também são ferramentas utilizadas para ocultar praticas danosas ao meio físico e social. Ou seja, hoje no meio organizacional falar em sustentabilidade é o mesmo que falar em ecocapitalismo, ou seja, a questão ambiental aplicada apenas no discurso teórico e não na prática!
Quer algo mais destruidor do que a implantação de árvores exóticas na Amazônia ou em qualquer outro espaço? E o tão aclamado “boi verde” que promove a derrubada de árvores, compactam o solo e proporcionam destruição no meio natural onde são inseridos. O que falar da utilização de agrotóxicos, do plantio de espécies geneticamente modificadas, dos resíduos químicos jogados sem tratamento nos afluentes e mananciais? Todas práticas realizadas por grupos empresariais, que são sempre tapadas com a peneira, ocultadas com programinhas que tentam sobressair a imagem organizacional e ocultar as verdades intrínsecas exercidas pelas entidades.
Somos filhos de uma pátria onde a riqueza natural esbanja recursos riquíssimos e variados! Poderíamos garantir soberania sustentável, mas como Washington Novaes* afirma o caminho está beirando o caos. Se não passarmos a adquirir práticas efetivamente sustentáveis a tendência do cenário climático é piorar cada vez mais. Precisamos adquirir novas legislações que realmente fiscalizem, criar mecanismos educacionais e definir novas matrizes energéticas.
                Usar mercadologicamente a sustentabilidade é simplesmente acabar com o principio de preservação. É um estupro do termo e da necessidade de implantar efetivamente praticas sustentáveis que recuperem aquilo que foi explorado.
A preocupação de alguns setores com os rumos que a destruição ambiental estava levando o planeta fez com que o termo sustentabilidade fosse usurpado e comercializado. No mundo do consumo tudo passa a ser caracterizado como um produto, independentemente do segmento que esteja voltado, ou seja,  a sociedade do consumo criou mercado e produtos em cima de todas as praticas,  inclusive em cima das preocupações.
A sociedade caminha para o caos! As preocupações estão sendo estupradas mercadologicamente e o mundo pede socorro. O que queremos? Construir um mundo melhor ou sugar e alimentar a lógica individualista de consumo?
Um mundo melhor é possível.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Mulheres do campo: construindo igualdade, identidade e um novo projeto de sociedade


Mujeres del campo luchando por la soberania popular la justicia, la vida e la igualdad é sob esta perspectiva que vão ser guiados os debates da IV assembleia de mulheres da cloc, em quito, no equador. O encontro que acontece nos dias 08 a 16 de outubro, vai contar com a participação de organizações camponesas de todo continente.
Com o objetivo de desenvolver debates quanto ao processo de lutas e de políticas para as mulheres, o encontro também fará um resgate das campanhas já realizadas que debateram temas como soberania alimentar, sementes crioulas, desenvolvimento da vida camponesa e pelo fim da violência contra as mulheres, fazendo um panorama frente os avanços, êxitos e maneiras de impulsionar a construção da luta, os debates e as reflexões frente a esses temas, princípios que estão sempre sendo ameaçados pelo poder do capital em todos os países do continente e do planeta.
Tendo em vista o debate e o resgate do processo de desenvolvimento das campanhas, o capitalismo e o poder do capital serão temas que entrarão nos debates. Eles são chaves mestres que impulsionam as desigualdades sociais, a perda da identidade dos povos, dos bens culturais originários em prol do desenvolvimento e da aquisição do lucro de grandes grupos e corporações de paises desenvolvidos, que exploram a sociedade, a cultura, as riquezas naturais dos países latino-americanos e desestabilizam a organização da sociedade desses países. Assim, os debates trarão a busca de perspectivas para barrar o poder do imperialismo e buscar maneiras de impulsionar a luta e o enfrentamento ao poder do capital e assim preservar a cultura, a identidade para que cada país, cada cultura seja soberana e produza e desenvolva para a construção de sua própria autonomia.
As campanhas foram instrumentos que estão contribuindo no avanço dos debates e no enfrentamento das desigualdades existentes em cada país. O desenvolvimento da preservação e, o resgate das sementes originarias de cada região, foram impulsionados e debatidos com mais ênfase, quando a campanha da soberania alimentar pautou mais enfaticamente dentro das organizações camponesas. Além disso, o debate o enfrentamento a transgênia, as modificações genéticas e a inserção de larga escala de monoculturas, em sua essência exóticas passaram a ser discutidos não apenas dentro das organizações, mas abriu um amplo leque de debates fora delas, para toda a sociedade.  Isso mostra a importância e o significado que a campanha desempenha nos debates e nas lutas dentro de cada organização camponesa e para a população.
Da mesma forma, as campanhas pelo fim da violência contra as mulheres e, todas as, outras proporcionaram um debate mais aprofundado frente a estas questões e, assim, impulsionaram o desenvolvimento das lutas e o enfrentamento as imposições do poder imperial. Desse modo, o resgate do processo de desenvolvimento das campanhas culminará, também, em novas alternativas de enfrentamento, debates e lutas para intensificar o desenvolvimento das reflexões destas questões.
Do mesmo modo que o capitalismo toma espaço importante nos debates, o feminismo não podia ficar de fora. Assim como, resistência e a luta das mulheres, nas diversas organizações camponesas de todo continente latino-americano. A discriminação e a desigualdade de gênero encontrada em todos os espaços do planeta é uma questão que mesmo com a evolução dos tempos, das discussões e das reflexões, as consciências de homens e até mesmo de mulheres não foram alteradas. Concepções impostas historicamente pelo poder patriarcal submetem as mulheres como um ser inferiorizado. Desse modo, a exploração, a violência e a opressão são problemas encontrados em inúmeras facetas da sociedade, sem distinção de classe social, etnia, posicionamento político e cultural.
O feminismo é o mecanismo capaz de concretizar e dar bases para o fortalecimento do socialismo. Justiça, igualdade, são princípios inseridos dentro dos pilares do feminismo e, assim, são bases fundamentais para sustentar os princípios socialistas.
Por isso, a programação da IV assembléia trabalhará painéis que trarão o debate acerca do feminismo na construção do socialismo e, sobre a luta feminista para a construção do socialismo.  Trazer reflexões e a compreensão do significado do termo feminismo, suas diferentes configurações, as lutas no decorrer da história e a difusão da discussão serão bases centrais, que ligam-se a diversos outros temas que serão trabalhados. O debate quanto a luta feminista é a base fundamental da luta das mulheres, nas mais diversas organizações sociais, de todo continente. A luta para sair da opressão, do anonimato cultural, político, social e econômico, são enfrentamentos que necessitam da discussão entre as organizações camponesas, para que assim, as forças sejam unidas e a luta seja fortalecida.
Novas relações sociais, com a natureza e com a vida. Respeito, dignidade, liberdade, justiça e direitos assegurados. Esses são princípios que intrinsecamente, estarão presentes nos painéis e nos debates dos grupos de trabalho, que serão formados para propor o desenvolvimento das reflexões.
A IV assembleia não será apenas um espaço de debates, mas simbolizará mais um passo no processo de luta das mulheres da América Latina. São passos que devagar foram se unindo a outros históricos e, agora, assumem em todos os países uma luta coletiva em prol de um só objetivo: a libertação e a emancipação da sociedade de quem explora e suga, tudo aquilo que é batalhado para conquistar. Cerca de 70% dos pobres do mundo são mulheres, vendo isso vemos a necessidade e a importância que as organizações de mulheres camponesas exercem no processo de organização e formação das mulheres, fazendo com que elas construam uma caminhada de lutas voltadas ao enfrentamento e a um posicionamento crítico e revolucionário e, assim, não sejam mais massas de manobras que se submetem às imposições mercadológicas e imperialistas.
 A assembleia é um espaço que promove a união e a confraternização entre as organizações e mostra que é através da organização, formação e luta das mulheres e de toda a sociedade que se alcançará à construção de políticas e de direitos, que respeitem a diversidade da vida e dos valores que são necessários para que a igualdade, a justiça e a dignidade do ser humano sejam preservadas nessa sociedade, onde a corrida pelo poder e pelo capital agem inescrupulosamente sobre a sociedade.
Lutar, resistir, preservar e construir um projeto que traga soberania alimentar, preservação da natureza, das sementes, da vida e que traga respeito e o fim a violência contra as mulheres e a qualquer outra forma de opressão, seja de classe, gênero, cultural são bandeiras levantadas por mulheres de todos os cantos do continente que vão se reunir em Quito para celebrar a vida e o poder de construir uma sociedade onde todos sejam sujeitos e agentes de uma concepção igualitária, soberana e popular.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A Crise Haitiana de Nação Entrevista com Gerald Mathurin

Entrevista cedida a José Luis Patrola e Thalles Gomes
Jakmel/Haiti
Passados seis meses do terremoto que assolou o Haiti em 12 de Janeiro de 2010, o cenário não mudou. Enquanto Bill Clinton e a comunidade internacional propagandeam uma ajuda financeira de U$ 9,9 bilhões para a reconstrução do país, ruínas e escombros se amontoam pelas ruas e estradas e a única ação visível desta ‘reconstrução’ são acanhados mutirões de limpeza nos quais homens e mulheres haitianos retiram com as próprias mãos ferros, vigas, destroços e corpos.
“Já estamos acostumados com as promessas da comunidade internacional. Não é a primeira vez que estamos enfrentando problemas e já temos muitas promessas da comunidade internacional acumuladas. Ela nos oferece seu apoio e o que nos dá é uma ocupação”, afirma Gerald Mathurin, uma das principais lideranças camponesas haitianas, em entrevista exclusiva ao Jornal Brasil de Fato sobre a conjuntura atual do Haiti.
Na opinião de Mathurin, “A questão militar acompanha sempre as intenções das potências internacionais quando necessitam fazer algo no país. Os militares que vieram antes, e os que vêm agora, têm sempre a mesma missão, têm sempre o mesmo objetivo, que é aplicar o projeto do imperialismo. Essa é sua missão”. Neste sentido, seu temor é de que essa reconstrução sirva somente “para beneficiar o investimento das empresas capitalistas no Haiti”.
Gerald Mathurin também discorre sobre a questão agrária do país, o papel submisso do Estado haitiano e as perspectivas de transformação social para superar o que ele chama de “Crise Haitiana de Nação”.
Confira a seguir a íntegra da entrevista.
Brasil de Fato: Você poderia fazer uma pequena apresentação sua, um breve resumo da sua trajetória?
Gerald Mathurin: Eu me chamo Gerald Mathurin, tenho 56 anos e nasci em Jakmel.  Atualmente estou na coordenação de uma organização que se chama KROS [Kòdinasyon Rejyonal Òganizasyon Sidès]. Estou nessa organização há algum tempo, desde 1998, um ano depois que eu deixei o Ministério de Agricultura. Sou engenheiro agrônomo e trabalhei por muito tempo com o Estado. Desde minha juventude eu trabalhei na ODVA [Organização para o Desenvolvimento do Vale de Artibonite], trabalhei no Vale de Latibonit, no Sul, em Grandanse, no Alto Latibonit. Por essa razão, durante esse período, fiz muitas consultas e viagens pelo interior do país, adquirindo uma idéia geral do Haiti, até chegar ao cargo de Ministro da Agricultura durante o período de março de 1996 a outubro de 1997. Trabalhei no setor das ONGs também, por um curto período de tempo, talvez por dois a três anos, onde dei suporte às organizações populares em geral e camponesas. Depois disso, eu vim para o KROS, primeiro como formador, depois como coordenador. Portanto, eu poderia dizer que minha experiência ocorre em três dimensões de organizações, a saber, o Estado, as ONGs e os Movimentos Sociais.
BdF: Você poderia nos passar um balanço geral sobre a questão agrária no Haiti?
GM: Eu tenho uma maneira de resumir a luta agrária do Haiti. Podemos dizer que existiu no país duas grandes correntes. Uma primeira corrente que defendia o interesse dos latifundiários, que tentou assegurar as grandes propriedades, utilizando grandes superfícies de terra com trabalhadores agrícolas. A outra corrente foi a da pequena propriedade de terra, que se baseava na perspectiva que cada família camponesa deveria ter um pedaço de terra para trabalhar. Essas duas correntes se afrontaram desde o começo do país. Podemos dizer que essas correntes tiveram dois grandes percussores: Toussaint Louverture defendendo a opção pelos grandes latifúndios, e Moïse Louverture se posicionando pelas pequenas propriedades de terra . Essas duas posições nunca se conciliaram e nunca chegaram a um entendimento. É por isso que jamais houve uma política agrária verdadeira no país. Dessalines  tentou regular essa situação, mas não teve tempo porque foi assassinado. Era uma pessoa que talvez conseguisse resolver o problema agrário, que queria resolver o problema agrário. Mais tarde, com os governos de Pétion e Boyer , tentou-se resolver a situação por meio de doações de terras. É daí que surge a palavra “grandon” [latifundiário em kreyòl]. “Grandon” significa grande [‘gran’] doação [‘don’].  Podemos dizer que a questão agrária jamais foi objeto de reflexão, de definição e de aplicação política. É por isso que sempre houve luta ao redor da questão agrária. Quer se trate dos “Piquets” , quer se trate de outras mobilizações sociais, na historia do Haiti os camponeses sempre lutaram para conquistar a terra. Sempre houve luta. Se fizermos um balanço da questão agrária do Haiti hoje em dia, podemos dizer que, se os camponeses não chegaram a conquistar a posse da terra, chegaram ao menos a ter acesso a terra.  São os camponeses que controlam a produção de alimentos. Apesar de muitos camponeses não serem proprietários de terra, são eles que têm controle sobre a produção de alimentos. Não existe nenhuma empresa capitalista, nenhuma empresa do agronegócio instalada no campo haitiano. A agricultura é essencialmente camponesa. São os camponeses que controlam a terra, apesar de não serem proprietários dela. O trabalho da terra é muito rudimentar e difícil, pois nunca foi modernizado. E a circulação da produção sempre foi complicada. E é justamente porque os camponeses não possuem a propriedade da terra que a agricultura é pouco produtiva no Haiti. Porque as pessoas que trabalham a terra não têm a propriedade da terra.  Têm no máximo pequenos pedaços de terra ou heranças que receberam de seus parentes. Para garantir sua sobrevivência, só lhes resta trabalhar nas terras dos latifundiários. Isso faz com que os camponeses super-explorem as poucas terras que possuem e tenham dificuldades em fazer investimentos – pela ausência de recursos ou porque as terras são de outras pessoas. Por isso a agricultura entra numa etapa de regressão, de degradação, porque não há investimentos. Dessa forma, a questão agrária hoje em dia merece ser discutida de forma mais séria para dar a agricultura uma oportunidade para que ela se desenvolva verdadeiramente. 
BdF: Você poderia falar um pouco mais sobre a produção nacional de alimentos e a dificuldade para abastecimento interno?
GM: Desde os anos 1950, a produção começou a regredir e a situação foi se agravando. Hoje em dia, o déficit na produção de alimentos é muito grande. Fala-se numa cifra de 45% a 50%. Isso quer dizer que metade das nossas necessidades alimentares vem de fora do país. É claro e evidente que se houvesse esforços e políticas desenvolvidas, trabalharíamos 10, 15, 20 anos para resolver esse déficit e retomar nossa auto-suficiência. Mas isso exige esforços importantes e um programa político sério. Para nós, a nível de KROS e de outros grupos que estamos refletindo sobre essa questão, acreditamos que isso é possível, mas será necessário que o Estado, o Governo, se interesse pela produção agrícola. São necessárias reformas importantes sobre a questão agrícola no país. Há muitas pessoas que têm propriedades, mas não possuem nenhuma relação com a terra, seja porque são médicos, profissionais liberais, seja porque vivem em Miami, Canadá, Europa ou em outro país. Isso só é possível porque essas pessoas nasceram em um país em que o sistema agrário permite que eles tenham direito a terra, mesma que não trabalhem nela. Essas pessoas não vão deixar o estrangeiro para trabalhar a terra no Haiti. Creio que é um problema que deve se resolver no marco de um acordo com as pessoas que vivem no estrangeiro e têm terras no Haiti. Um acordo que vai permitir liberar essas terras para aumentar o espaço de produção dos camponeses e que, dessa forma, garanta a viabilidade da agricultura no país. Porque quando uma família camponesa tem somente um pedaço reduzido de terra para produzir, a agricultura se torna inviável. E tampouco podem investir. Nesse sentido, é necessário também liberar as terras que pertencem ao Estado, para aumentar o acesso a terra por parte dos camponeses, bem como ajudá-los a financiar a compra da terra. De toda a maneira, uma coisa deve ficar clara: a agricultura no Haiti é uma atividade que só os camponeses podem fazer. Podem até instalar pequenas empresas agrícolas, mas a agricultura deverá ficar nas mãos dos camponeses. Só assim podemos chegar a transformar realmente a agricultura no país. Isso requer um programa agrário para o Haiti, um verdadeiro programa agrário. Esse é o problema fundamental do país: estabilizar a questão da agricultura, com famílias camponesas envolvidas na produção. De que estamos falando? Estamos falando da transformação da vida dos camponeses. Só a partir daí é que vamos ter a base necessária para falar de outros problemas no país. Infelizmente, não se ouve as autoridades tocarem nesse assunto quando se fala da reconstrução ou refundação do Haiti. Não é disto que estão falando. Falam em milhões e milhões de dólares que virão, mas esses dólares que serão investidos não têm nenhuma relação com esses problemas. Não falam nunca desses problemas no marco da reconstrução.
BdF: Quais as conseqüências do terremoto de 12 de Janeiro de 2010 para o país?
GM: A maneira com que algumas pessoas estão encarando o terremoto no Haiti não é correto nem justo. É verdade que o terremoto causou muitos danos materiais. É verdade que muitas pessoas morreram. É verdade que há muitos desabrigados. Nós sabemos. Os dados estão aí. Mais de 200 mil mortos, 1 milhão de desabrigados e os danos físicos que até agora não temos o real alcance, mas se falam em bilhões de dólares. Esses são os dados. Mas o terremoto também abriu nossos olhos para ver em que estado nosso país se encontrava. Todo haitiano tem hoje um nível de consciência sobre a situação do Haiti. Uma consciência que não possuía antes. E isso é muito importante. Os haitianos deram-se conta que não estão vivendo em um ‘país’, estão vivendo em uma estrutura na qual o Estado está ausente, o Estado está perdido, o Estado esta impotente. Dão-se conta também de que há uma necessidade imperativa de mudar isso. Essa é a segunda grande conseqüência do terremoto, depois da destruição das vidas e das casas. A terceira grande conseqüência é a constatação de que o Estado não é capaz de intervir, o que mostra a debilidade e fragilidade do país. É um pais muito frágil e necessita que as autoridades dêem resposta concreta a essa fragilidade. Estamos num território frágil, sujeitos a passagem de ciclones e terremotos e não temos capacidade de responder a essa fragilidade. Por fim, a última conseqüência que surge dessa situação é sobre que orientação as pessoas querem dar ao país. Que orientação é essa? Que caminho é esse? Penso que há uma constatação generalizada sobre os entraves à escolha desse caminho, um entrave à soberania do país, representado pelo projeto de ocupação do país. Eu penso que estas são as grandes conseqüências do terremoto.
BdF: E as conseqüências para o campo haitiano?
GM: As conseqüências para o setor agrícola não foram pequenas. Há uma série de outros atores hoje em dia que estão atuando no setor agrícola, que não estavam atuando antes. Há mais atores, mais pessoas e não há uma capacidade de coordenação desses atores. Outra conseqüência é que as famílias camponesas receberam muitas pessoas refugiadas e tiveram que tirar da sua escassa produção para alimentar essas pessoas. Esses desabrigados migraram para as províncias, para o campo, e buscam agora respostas para sua vida e para sua sobrevivência. E a pressão dessas pessoas recai sobre a agricultura. A terceira questão é que por atrás de todos esses projetos de reconstrução se escondem outros interesses. Não creio que seja por mera causalidade que a Monsanto aparece em cena e começa a doar sementes de milho hibrido. Eu penso que ela está buscando caminhos para ter o controle total sobre o mercado de sementes haitiano. É uma conseqüência bastante importante e nós devemos estar vigilantes.
BdF: Sobre o tema da reconstrução nacional, sabemos que o Presidente René Preval tomou várias medidas depois do terremoto e também criou uma Comissão Provisória para a Reconstrução do Haiti, aproveitando para aumentar seu mandato. O que você pensa sobre essas medidas?
GM: São ilegítimas e ilegais. São contrárias aos princípios constitucionais. Quando dizemos isso, pode aparecer que se trata de um debate sobre o respeito ou não à Constituição, entretanto é um debate mais profundo. De fato, estamos falamos de um pequeno país que tem sua história, uma história que podemos aprender sem muitas dificuldades. Saímos do fundo das trevas da colonização que repousava sobre a violência, o saque e a exploração do ser humano. Seqüestraram-nos de nossas terras, de maneira que não podíamos falar a mesma língua. Não nos consideravam seres humanos, nos vendiam como animais e nos obrigavam a trabalhos forçados como escravos. Conseguimos resistir ao centro de uma ‘comunidade internacional’ que aceitou o colonialismo. Pois, mesmo que o conceito de ‘comunidade internacional’ não existisse à época, não se pode negar que as potências colonialistas se entendiam sobre o que fazer e como fazer. E o que se chama ‘comunidade internacional’ é na verdade isso: o encontra das potências. Portanto, entendemos o que é colonialismo e o vivemos em nossos corpos, em nosso sangue e em nossa carne. E apesar de tudo, conseguimos superar o colonialismo e construir um país. É isso que as pessoas esquecem. Saímos do nada, de uma condição subumana, de uma massa de gente que não falava a mesma língua, que era açoitada dia e noite. E desta condição conseguimos com destreza e com visão liberar um país e fazer a independência. É um ato maior na história do mundo, porque vamos colocar em cena uma raça, uma qualidade de pessoas que antes se afirmava não serem humanos. Este feito maior é muito importante na história do mundo. Mas isso não é a única coisa importante que construímos como país. Além de tudo isso, inventamos o pan-americanismo. Não se reconhece isso do Haiti. Mas se um dia resolverem falar de um país que decidiu oferecer apoio para a liberação de pessoas e povos, o Haiti deve ser o primeiro da lista. Hoje em dia se fala da ALBA [Aliança Bolivariana para os Povos das Américas]. Pois saibam que Simón Bolívar recebeu apoio do Haiti . Isso é um outro ganho de nosso país, a liberdade e apoio para a libertação de povos no mundo. Porém, depois de nossa independência, persistiu o ostracismo, o isolamento e o saque. Não quero dizer que o povo haitiano não tenha nenhuma responsabilidade sobre a situação atual. Mas há de se reconhecer que a conjuntura internacional sempre foi desfavorável para nós. ‘Desfavorável’ é uma pequeno eufemismo, doce e agressivo. Os EUA só reconheceram nossa independência em 1862. Em 1915, tombamos sob uma ocupação dos mesmos EUA e depois desta ocupação [1915-1934] o país foi completamente transfigurado. Pouco depois, na lógica da Guerra Fria, se instala no país uma ditadura [1957-1986] para resolver os problemas dos ‘comunistas’. Mal saímos desta lógica e entramos na lógica do liberalismo. Nos impuseram um conjunto de medidas de ajuste estrutural que não correspondiam a nossa visão e a nossa economia. Em resumo, Haiti passou todo sua trajetória sobre esse tipo de intervenção. E hoje, depois do terremoto, a ‘comunidade internacional’ nos oferece seu apoio e o que nos dá é uma ocupação. Podemos dizer que vivemos no marco de nossa história somente dois anos de independência real, entre 1804 a 1806. Porque desde que iniciamos o pagamento da Dívida de Independência para a França abandamos a lógica da independência. Desde este período entramos em um espiral de dependência que se aprofunda a cada dia. E agora, após o terremoto, se sacramentou a dependência do país. As ações do presidente Preval estão sacramentando a dependência do país. E é justamente por isso que não estamos de acordo. Não aceitamos esse caminho, porque cremos que esse caminho não vai nos levar a lugar algum. Não estamos contra a ajuda internacional, nem o apoio internacional. Necessitamos de apoio. Que país não precisa de apoio em um domínio ou outro? Reconhecemos essa interdependência, mas acreditamos que ela deve ser construída respeitando a liberdade dos povos. Estamos claros sobre isso, e é por causa disso que há tantos protestos contra o governo atualmente. Porque qualquer governo sério que chegue ao poder não pode estar de acordo com essa situação.
BdF: Você poderia falar um pouco mais sobre as conseqüências da ocupação estrangeira, militar e civil, que o país vêm sofrendo nos últimos anos?
GM: A questão militar acompanha sempre as intenções das potências internacionais quando necessitam fazer algo no país. Os militares que vieram antes, e os que vêm agora, têm sempre a mesma missão, têm sempre o mesmo objetivo, que é aplicar o projeto do imperialismo. Essa é sua missão. Agora tomemos a MINUSTAH [Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti], que está no país há muito tempo e vem renovando sempre seus mandatos. Se a MINUSTAH estivesse cumprindo sua missão de promover a estabilização do país e acompanhar projetos de desenvolvimento, como então ela não sabia que havia este risco de terremoto no país? Devia saber, porque essa é sua função no país. Devia saber que havia esse risco e propor um conjunto de medidas e soluções para enfrentá-lo. A MINUSTAH deveria ao menos socorrer a população. Mas nem isso pôde fazer: socorrer as pessoas e organizar a alimentação. A questão militar, na verdade, é uma oportunidade para que as autoridades permaneçam na impunidade dentro do poder. As autoridades disseram que não querem o exército do Haiti, mas querem os exércitos estrangeiros. Como uma pessoa pode dizer que não quer o exército de seu país, ter destruído o exército de seu país e depois fazer entrar tantas tropas estrangeiras em seu território ? Acontece que essas pessoas têm interesse na permanência das tropas estrangeiras no país. Estão em comum acordo.  É assim que eu entendo a situação.
BdF: E a atuação estrangeira civil na reconstrução do país?
GM: Já estamos acostumados com as promessas da ‘comunidade internacional’. Não é a primeira vez que estamos enfrentando problemas e já temos muitas promessas da ‘comunidade internacional’ acumuladas. Temos sérias dúvidas sobre a capacidade da ‘comunidade internacional’ em realizar o que prometeram e de encontrar recursos para fazer o que propagandearam. De todo modo, não tenho confiança nessa reconstrução. Penso que há grandes empresas que vão lutar para ter grandes contratos. Obviamente vão construir algumas estradas, algumas casas, algumas escolas. Mas o que se esconde por trás desse processo de reconstrução é um projeto de saque de certas potencialidade que existem no país. O que mais temo é que seja uma reconstrução que venha para beneficiar o investimento das empresas capitalistas no Haiti. Porque o que vão dizer sobre a reconstrução é que ela ajudará na criação de empregos. Mas para criar empregos é preciso investir e para investir é preciso facilitar a entrada de empresas capitalistas no país, na criação de hotéis, na expansão das zonas francas. Em outras palavras, colocar o país nos trilhos do liberalismo. Eu penso que este é o projeto que estão apresentando. Há grandes interesses capitalistas em jogo por trás da reconstrução.
BdF: Você falou da realidade estrutural e de problemas conjunturais. Poderia agora apontar quais as perspectivas no campo popular para superar esses desafios?
GM: Creio que as perspectivas são ao mesmo tempo estruturais e conjunturais. Quer dizer, a maneira com a qual devemos encarar os problemas deve permitir encontrar uma resposta conjuntural enquanto tratamos de encontrar soluções estruturais. Há algumas pessoas que falam da ‘Crise Haitiana de Nação’. É uma maneira de dizer que a crise que estamos vivendo é uma crise muito profunda. Não é uma crise setorial, é a nação mesma que está em crise. Quer dizer, uma crise entre o povo e o Estado que está administrando a nação. E em verdade é esse o problema. Somos um povo abandonado desde a morte de Dessalines. Não houve nunca um entendimento para caminhar o povo rumo ao bem-estar. E essa é a condição fundamental de progresso em todos os países. No passado, Cuba foi um país onde uma pessoa poderia ir jogar nos cassinos ou passar um bom momento com mulheres. Era a característica de Cuba antes da Revolução. Hoje, Cuba está produzindo médicos para todo o mundo. Hoje são médicos, e não prostitutas, que Cuba oferece. É o que se chama construir uma nação. Este esforço não existe no Haiti, quer se trate de revolução ou não. Não se faz esse esforço no país, não há um compromisso para acompanhar o povo na educação, na saúde, no lazer e para criar um espaço no mundo a fim de que o povo haitiano possa dizer: aqui está o que somos. E isso é o que chamamos a “Crise Haitiana de Nação”. Uma crise que somente o povo haitiano pode resolver. Então, temos que fazer as pessoas entenderem que fazem parte de uma coisa que se chama Haiti e que precisam definir juntas suas próprias regras de convivência. Precisam definir juntas o que vão fazer para resolver o problema da desigualdade que existe em nossa sociedade. É inaceitável que a maioria dos haitianos esteja vivendo em condições tão subumanas, enquanto alguns vivem em níveis tão altos de consumo e riqueza que correm o risco de se queimar por estarem tão perto do sol. Temos que resolver esse problema para construir uma sociedade justa. E somente as forças sociais podem acabar com essa exclusão. É por isso que afirmamos que esse processo de reconstrução não vai a lugar algum, porque não é disso que estão falando.
Notas:
1. Toussaint Louverture e Moïse Louverture foram dois generais do exército de escravos haitianos que levou à cabo a primeira revolução vitoriosa de escravos na história da humanidade, tornando o país independente em 1804. Moïse Louverture foi fuzilado a mando de Toussaint ainda durante a luta pela libertação do país, pelo seu posicionamento a favor da divisão das terras entre os camponeses. Toussaint, que havia liderado e unificado a revolução haitiana, foi preso e assassinado pelo exército francês em 1802.
2. Jean Jacques Dessalines foi o general do exército revolucionário haitiano que comandou a derrota definitiva das tropas de Napoleão no Haiti, declarando a independência do país em 1804. Foi o primeiro mandatário do Haiti, entre 1804 e 1806, ano em que foi assassinado.
3. Alexander Pétion também integrou o exército revolucionário haitiano. Foi presidente do Haiti entre os anos de 1806 a 1818. Jean Pierre Boyer foi seu sucessor, 1818-1843.
4. Piquets: Movimento insurgente de camponeses haitianos que se deflagrou contra a política discriminatória da elite econômica mulata durante o governo de Boyer e que em 1844 levou a queda de seu sucessor, Charles Rivière-Hérard.
5. Simon Bolivar esteve no Haiti em 1816 e recebeu do então presidente Alexander Pétion ajuda financeira e militar para o processo de independência da América Espanhola.
6. O Exército Nacional Haitiano foi dissolvido por Aristide quando voltou ao poder em 1995.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Gaúchas fazem vigília em protesto contra à violência

   Com objetivo de protestar contra o aumento de crimes e da violência, nesta quarta, 21, gaúchas de todo o Estado farão duas horas de vigília em desagravo aos assassinatos e violência que vitimizam milhares de mulheres diariamente.
   Em Porto Alegre, a concentração será na Praça da Matriz. O local, conforme uma das coordenadoras da Marcha Mundial das Mulheres, Claudia Prates, foi escolhido pois concentra os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário. “Precisamos cobrar que a Lei Maria da Penha seja aplicada, pois se as medidas que estão na legislação fossem tomadas muitos crimes poderiam ser evitados”, afirmou. Atividades semelhantes acontecerão também em Esteio, frente ao Sindiplast - Rua dos Ferroviários, 119; em Caxias da Sul, na Praça Dante Alighieri, no centro; em Pelotas, no Calçadão da Sete de setembro, em frente ao Chafariz e em Rio Grande, na Furg.
   Conforme estudos realizados pelo Mapa da Violência no Brasil 2010, com base em dados do Sistema Único de Saúde (SUS), no período de dez anos (1997 – 2007) cerca de dez mulheres foram assassinadas por dia. Os números apontam que 41.532 mulheres morreram vítimas de homicídio, um índice de 4,2 assassinatos por 100 mil habitantes.
   “No Rio Grande do Sul a situação é a mesma, precisamos acabar com o machismo e com esta cultura que legitima o poder do homem sobre a mulher, a banalização da violência e do assassinato das mulheres pelos homens”, cobrou Prates.
   O movimento, que iniciou com uma articulação feita pela Marcha Mundial das Mulheres via email, blogs e twitter, já conta com a adesão de diversas entidades como CUT, Liga Brasileira de Lésbicas (LBL-RS), Rede Feminista de Saúde, Coletivo Vânia de Araújo Machado, Bancárias de todo o Estado, Comdim's, Grupo Autônomo de Mulheres de Pelotas (Gamp), Coletivo de Mulheres da UCS, Caxias do Sul, Apta-FURG de Rio Grande entre outras.
   As blogueiras da "Ofensiva contra o Machismo" confirmaram presença com a distribuição e colagem dos adesivos “O Machismo Mata”, que serão aplicados pelas cidades onde a vigília está confirmada.

Saiba mais:
http://mmm-rs.blogspot.com/2010/07/ativismo-contra-violenciabasta-de.html
http://contramachismo.wordpress.com/2010/03/08/a-ofensiva-contra-o-machismo/

Contato para informações e entrevistas:
Porto Alegre
- Claudia Prates (Marcha Mundial das Mulheres) - F:9208.9643
Esteio
Janaína dos Santos -(Coletivo Vânia de Araújo Machado) F: 9689.0645
Bagé
Lália Quadros (Coordenadoria da Mulher) F: 053 9964.3778
Caxias do Sul
Mariane Travi Ceconello (Coletivo de Mulheres da UCS) F: 54 8401-4436
Pelotas
Zely Franco (GAMP) F: 053 8124.7888

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Clip da copa de 2014

TV CULTURA afasta jornalistas: cadê a liberdade de expressão?

     Faz tempo que não assisto a TV CULTURA, mas até um tempo atrás, era uma das emissoras que se mostrava mais aberta à diversidade de opiniões e mostrava o outro lado da moeda. Se você não queria se submeter às imposições jornalísticas e, as aberrações culturais da Rede Globo e de toda a corja que rege o monopólio da mídia, você encontrava na TV Cultura uma alternativa.
    Mas...Acho que não é mais assim! Fiquei um tempo sem ver esse canal, pois ele foi tirado da TV ABERTA. Depois disso, a emissora voltou, mas procurava como canal alternativo a TV Educativa do Paraná. Pois bem! No final da semana passada, o recém nomeado diretor de jornalismo da TV Cultura é subitamente afastado do cargo. Motivo: indicou uma pauta que não deveria ter indicado!
    Qual a lógica disso? Existe pauta certa para ser indicada?...
    Existe.
   A regra é fácil de ser compreendida. Toda pauta que mostre para a sociedade aquilo que ela não possa ver e, que assim, vai incomodar o desenvolvimento do poder do capital, vai ser uma pauta errada.
   Porque?
   Simples!
   A lógica da mídia brasileira é impor aquilo que a sociedade deve ver, ouvir, falar, pensar e incorporar para si. Fazer um jornalismo ou qualquer outra programação que faça a sociedade exercitar o poder do pensamento e da reflexão está fora de questionamento.
   Primeiro foi Heródoto Barbeiro, demitido do cargo de apresentador do roda viva. Motivo? Simples... Questionou nosso digníssimo ex-governador de São Paulo e candidato à presidência da república, José Serra, sobre os pedágios paulistas. Gabriel Priolli recém indicado a diretor de Jornalismo da emissora, indicou uma pauta que abordava, nada mais que os pedágios paulistanos, não durou uma semana no cargo.
   No dia que levantou essa pauta, teve que, imediatamente, derruba-la e cobrir o espaço com uma reportagem sobre as viagens dos candidatos!
   Ah! Pauta emocionante! Não acham?
   Pois bem poucos acharam, mas Serra amou! Depois disso Priolli foi afastado.
   A ditadura militar foi o período mais cruel de censura. Mas...E hoje temos liberdade de falarmos aquilo que nosso bom senso nos diz? Visivelmente: NÃO!
Jornalistas que fazem um jornalismo realmente informativo e não decorativo, são poucos. Os veículos de comunicação entregam sua cartilha... ou você a reza... ou você está fora do veículo. Esses que não rezam a cartilha da empresa, que mexem em feridas de figuras poderosas são calados de alguma forma.
Então vivemos um período de censura, que leva o nome de liberdade de expressão. Nosso ilustre candidato José Serra, antes de iniciar efetivamente o período eleitoral já conseguiu afastar dois jornalistas de seus cargos. Imaginem o que acontecerá até o final dessas eleições...E se ele ganhar? Vai ser um período com uma censura pior que a do tempo da ditadura. Ele é uma das maiores ameaças à liberdade de imprensa que esse país já enfrentou.
   Além disso, nas entrevistas concedidas, o candidato é irônico, truculento e não responde aos questionamentos feitos. Pior. Ele tenta se colocar na função de entrevistador. Representa a figura legitima do político que não respira nem para que o jornalista interrompa seu longo discurso cheio de “abobrinhas”, e faça uma pergunta que volte ao foco do debate. Ele não deixa. Ele interrompe o jornalista e ele mesmo tenta se colocar na posição de jornalista, fazendo questionamentos nada inteligentes.
   É...esse é um dos candidatos que temos!
   Veja esses vídeos. Explicam a arrogância do candidato, o deboche frente ao jornalista e à população brasileira.


Liberdade de expressão??

Liberdade. Direito de livre expressão. Direito à comunicação. Quem tem? Eu, você ou os grandes detentores do poder midiatico. Marinho e companhia não permitem que a sociedade se expresse. Simplesmente impõem aquilo que deve ser ouvido e reproduzido. É assim que se apresenta a conjuntura da comunicação brasileira.

Intervozes - Levante sua voz from Pedro Ekman on Vimeo.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Um ano após golpe, hondurenhos protestam nas ruas


Um ano após o golpe que tirou do poder o presidente eleito Manuel Zelaya, a crise política em Honduras continua a preocupar a América do Sul. Manifestações populares em todo país, nesta segunda-feira (29), contestam o atual governo, liderado por Porfírio Lobo, que tenta conquistar legitimidade e solucionar a crise política interna. A crise se arrasta desde 28 de junho do ano passado, quando Zelaya foi deposto. O novo governo, que tomou posse em janeiro, ainda não conseguiu convencer a comunidade internacional de sua reintegração às instituições das quais foi afastado – entre as quais a OEA (Organização dos Estados Americanos).
Lobo, eleito em novembro do último ano com a promessa de resolver o impasse, é alvo de críticas de grupos de defesa dos direitos humanos. Também enfrenta a pressão da oposição, que defende a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Na última semana, pouco antes de viajar à África do Sul para acompanhar a Copa do Mundo, Porfírio Lobo disse ter conhecimento de uma conspiração para retirá-lo do poder, assim como ocorreu com seu antecessor.
Segundo o jornal Página 12, nesta segunda-feira (28), milhares de pessoas foram às ruas em todo país em repúdio ao golpe de Estado. No mesmo dia, a Anistia Internacional levantou denúncias contra o atual governo hondurenho por manter práticas de violação aos Direitos Humanos, como a responsabilização pelo assassinato de nove jornalistas em 2010.
Trabalhadores estatais, professores e estudantes formaram marcha em Tegucigalpa pela Frente de Resistência Popular (FNRP). Outras centenas de militantes do Partido Liberal, de Zelaya, também participaram da manifestação, mas não conseguiram chegar até a Casa de Governo, por causa do forte dispositivo de segurança instalado nas ruas.
No âmbito internacional, o Brasil e os países da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), com exceção de Colômbia e Peru, resistem em aceitar a reincorporação de Honduras à OEA, de onde o país foi expulso após a queda de Zelaya. Os países exigem o fim do exílio de Zelaya e sua reincorporação à política, com garantias de que não haverá perseguição quando o ex-presidente retornar ao país.
Líderes sul-americanos também questionam a anistia concedida por Porfírio Lobo à cúpula militar, antes da conclusão dos trabalhos da chamada Comissão da Verdade, instalada há apenas um mês, para apurar as responsabilidades sobre os crimes ocorridos durante o governo golpista que afastou Zelaya.
O ex-presidente exige que seja permitida sua volta incondicional para Honduras e que o governo suspenda os processos contra ele. É acusado de atentar contra o sistema democrático de governo, com traição à pátria, abuso de autoridade e corrupção.
Porque Zelaya caiu
O político está hoje na República Dominicana, onde se refugiou com um salvo-conduto outorgado quando o presidente Porfirio Lobo assumiu o poder, em janeiro. "Esta é minha luta, nunca me rendo, e a única saída para Honduras é um novo acordo para o diálogo político e a convocação da Constituinte", disse.
Os planos de convocar uma Assembleia Constituinte foram o argumento dos golpistas para derrubar Zelaya do poder e expulsá-lo do país. Zelaya acabou voltando em segredo e se abrigou na embaixada do Brasil, em Tegucigalpa. Posteriormente, houve um acordo para a saída do político do país.
O presidente afastado atribui o golpe às medidas adotadas por seu governo, entre elas um plano para reaver a base militar americana de Palmerola (45 quilômetros ao norte de Tegucigalpa), para convertê-la em um aeroporto civil, e por assinar tratados de associação com a Venezuela e a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba).
Segundo o ex-líder, também pesou contra ele o fato de seu governo ter eliminado as políticas monetárias cambiais e salariais, com subsídios ao transporte e melhorias para os operários, "contradizendo as políticas de recessão do Fundo Monetário Internacional (FMI)", como explica Zelaya.
Zelaya também escreveu na carta que as medidas tomadas por seu governo permitiram que Honduras mantivesse suas reservas internacionais e o país conseguisse um nível adequado de crescimento dos programas sociais, em um quadro de crise internacional.

Denis Mukwege alerta para o aumento da violência sexual em mulheres do Congo

A violência sexual contra mulheres da República Democrática do Congo aumentou nos últimos dez anos - 18% dos casos da década são de 2009. "Estão destruindo a humanidade ali e ninguém faz nada", alertou o ginecologista Denis Mukwege, fundador em 1999 do Hospital de Panzi, que atende vítimas de abuso. Ele ministrou na segunda-feira, em Porto Alegre, palestra ligada ao Fronteiras do Pensamento, quando explicou que a guerra no país é econômica e clamou por intervenção internacional. "A ajuda humanitária é assistencialista, não resolve a origem do problema".
Ao menos um terço dos casos que atende é de mulheres torturadas a ponto de necessitarem de cirurgias. "Intensificam-se os casos em que elas perdem não só o aparelho genital, mas também a bexiga e até mesmo o aparelho digestivo".
O médico, indicado ao Prêmio Nobel da Paz em 2009, concedido a Barack Obama, disse que não é uma luta entre grupos étnicos nem guerra entre países. "Há 15 anos houve intensos genocídios em Ruanda. Os ''genocidários'' vieram se refugiar na República Democrática do Congo e utilizam as mulheres como arma de guerra. A destruição psicológica e emocional em uma mulher violentada na comunidade faz com que os moradores queiram fugir." Conforme Mukwege, pela humilhação e pela violência, destroem famílias. "Com a aniquilação dos moradores, exploram mais facilmente a região rica em materiais utilizados em componentes eletrônicos, como a cassiterita. Há empresas multinacionais que extraem os minérios na África".
Os agressores entendem que quanto maior e mais evidente o dano, mais eficaz. "Atiram na genitália, inserem baionetas, pedaços de pau, deixando suas marcas. Querem traumatizar ao máximo e não há distinção de idade; atingem de crianças a idosas".
O médico comentou que as mulheres tentam esconder as agressões, sua primeira reação é proteger a dignidade. "Mas, se não conseguem mais controlar as fezes e ferimentos, não há como esconder", disse. As vítimas chegam ao hospital sozinhas ou encaminhadas por associações. Também há equipes móveis de médicos. "Não temos capacidade de atender mais de dez mulheres por dia e só recebemos os casos mais graves, mas eles vêm aumentando. Ano passado foram atendidos 5,5 mil casos e em dez anos, 30 mil mulheres", mensurou.
Mukwege esclareceu que a violência sexual ocorre em outros países como Congo, Bósnia, Colômbia ou Quirguistão, onde crianças são violentadas na frente dos pais.

sábado, 24 de abril de 2010

Curso de Jornalismo da UPF promove 5º Making OF


Curso de Jornalismo promove encontro na UPF, no final de abril, com a participação de diversos profissionais da área

Discutir propostas, debatendo novas ideias e compartilhando experiências vividas. Esse é o principal objetivo das quinta edição do projeto Making Of 2010, promovido por professores e alunos do curso de Jornalismo, da Faculdade de Artes e Comunicação (FAC) da Universidade de Passo Fundo (UPF), que será realizado de 27 a 29 de abril, no auditório da pós-graduação em Agronomia, Campus I. 

Durante os três dias, onze profissionais, entre alunos, ex-alunos e profissionais de diferentes segmentos do jornalismo, discutirão novas propostas da profissão, buscando debater as principais questões que se colocam como fundamentais no processo comunicativo do jornalismo. As palestras desse ano terão como temática o “Empreendedorismo no Jornalismo”. A proposta é que os diferentes convidados possam apresentar ao público experiências profissionais e pessoais. 

Na terça-feira (27), pela manhã, será apresentada a palestra de abertura “O Empreendedor em Comunicação”, com profissionais do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), seguido por relatos de experiência de dois ex- alunos do curso de Jornalismo da UPF: Matheus Rodighero, repórter da RBS TV de Passo Fundo e Vivian Viríssimo, mestre e pesquisadora em Processos e Produtos Jornalísticos da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). No período da noite, o público terá a oportunidade de interagir com os mesmos palestrantes, permitindo, assim, que todos tenham a disponibilidade de presenciar o evento.

Já na quarta-feira (28), o jornalista e produtor esportivo Franklin Berwig, da Rádio Gaúcha, e Juliana Schneider, do Caderno Avesso do Jornal O Nacional, estarão relatando, pela manhã, experiências pessoais no jornalismo. À noite, César Fraga, editor-executivo do jornal Extra-Classe, vinculado ao Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (SINPRO/RS), e os responsáveis pelo Caderno Avesso, os jornalistas Daniel Bittencourt e Clarissa Ganzer, além do publicitário Gustavo Leal, também interagem com o público, relatando exemplos de empreendedorismo na profissão. 

Para fechar a programação, na quinta-feira (29), pela manhã, novamente os convidados César Fraga, Daniel Bittencourt, Clarissa Ganzer e Gustavo Leal participarão de mais debates com o público. No período da noite, ocorrerá um painel com as editoras-chefes dos dois jornais diários de Passo Fundo: Zulmara Colussi, de O Nacional, e Rosângela Borges, do Diário da Manhã. Elas debaterão sobre os desafios do jornal impresso, além de relatos pessoais e profissionais.

O Making Of 2010 tem entrada gratuita nos três dias de programação. Alunos, professores, profissionais da imprensa e a comunidade em geral terão a oportunidade de ver e ouvir relatos de histórias de empreendedores no jornalismo, com suas dificuldades e seus triunfos inerentes à profissão.

quarta-feira, 24 de março de 2010

FASE: interesses privados e o silêncio da RBS

Do RS Urgente

Hoje não vou falar sobre nada que eu tenha lido, ouvido ou visto nos jornais por aí. Vou falar sobre o que eu não vejo, não ouço, não leio. Não lembrava de ter visto na Zero Hora, por exemplo, mas, para não ser injusta, fui ao canal de busca do site. Mas minhas impressões se confirmaram: a informação mais recente que encontrei sobre a possível alienação ou permuta do terreno da Fundação de Atendimento Sócio-Educativo (Fase), que pertence ao estado do Rio Grande do Sul, é datada do dia 11 de março. E tem míseros dois parágrafos. Antes dessa, uma notinha de iguais dois parágrafos do dia 23 de fevereiro, louvando a iniciativa do governo Yeda.

O projeto de lei 388, que autoriza a alienação ou permuta de um terreno de 74 hectares localizado na avenida Padre Cacique, quase em frente ao estádio Beira-Rio – ou seja, extremamente bem localizado, principalmente se considerarmos a iminência de uma Copa do Mundo -, com um vasto patrimônio ambiental e histórico, seria votado hoje, caso tivesse havido quórum, na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do RS.

Além do patrimônio riquíssimo que o governo quer entregar para a iniciativa privada, o terreno tem também pelo menos 10 mil pessoas que moram ali e não estão sendo ouvidas. A ideia é trocar o terreno por outros menores, com o suposto objetivo de descentralizar a Fase, mas não há planejamento para isso, e a imprensa se cala. Mais informações sobre o caso no Somos andando, no RS Urgente e no Jornal do Comércio.

É possível que o governo entregue a última área que ainda conserva vegetação típica de Porto Alegre para construtoras, mas a mídia não diz. Sei que a Band cobriu alguma coisa na rádio. Sei que o Marcelo Noah está se esforçando na Ipanema para fazer alguma divulgação. Fora isso, silêncio (peço perdão se faltou citar alguém, mas não dou conta de rastrear toda a cobertura da imprensa, sei apenas que foram pouquíssimos os que noticiaram).

A explicação óbvia seria por si só bem plausível diante do que estamos acostumados a ver na imprensa: interessa mais valorizar a iniciativa privada nos meios de comunicação. Não interessa o que pode ser bom para a população. Ainda mais se quem tiver proposto o projeto for um governo amigo. É sempre bom preservar esse tipo de amizade. Amizades poderosas.

Mas a coisa vai mais longe: os Sirotsky, a quem pertence o maior, quase único, grupo de comunicação do Rio Grande do Sul, a RBS (conhecido por alguns como PRBS, por conta de suas características de partido político nas atitudes que toma), são também donos de uma empresa chamada Maiojama (uma mistura breguíssima dos nomes MAurício; IOne, mulher de Maurício; JAyme; e MArlene, mulher de Jayme). A Maiojama é uma construtora, ou melhor, como diz em seu site, “atua no planejamento e desenvolvimento de edificações residenciais, comerciais, flats e shopping centers”.

Agora peço um esforço mínimo de dedução lógica dos leitores: o governo do estado quer entregar um terreno por um valor muito abaixo do de mercado; o terreno é gigante, muito bem localizado, num dos pontos atualmente mais disputados de Porto Alegre; seria perfeito, do ponto de vista empresarial, para construir um grande complexo, que poderia envolver dúzias de torres de apartamentos, comércio, shopping, mil coisas; quem faria isso seria uma construtora; os Sirotsky têm uma construtora; os Sirotsky têm um grupo de comunicação; o grupo de comunicação se cala diante de um empreendimento que pode prejudicar a população. Logo, há um grande interesse por trás que orienta o silêncio absolutamente antiético da empresa de comunicação.

A ética jornalística manda colocar o cidadão em primeiro lugar e não se deixar corromper. Os interesses privados não podem transpor os coletivos. Ou seja, a RBS adota uma postura nitidamente, escancaradamente, maldosamente antiética.

* Peço aos blogueiros que ajudem a divulgar o roubo que está sendo tramado ao patrimônio público. Diante do silêncio da grande imprensa, nós temos a obrigação de nos unir e lutar pelos interesses da cidade