Um ano após o golpe que tirou do poder o presidente eleito Manuel Zelaya, a crise política em Honduras continua a preocupar a América do Sul. Manifestações populares em todo país, nesta segunda-feira (29), contestam o atual governo, liderado por Porfírio Lobo, que tenta conquistar legitimidade e solucionar a crise política interna. A crise se arrasta desde 28 de junho do ano passado, quando Zelaya foi deposto. O novo governo, que tomou posse em janeiro, ainda não conseguiu convencer a comunidade internacional de sua reintegração às instituições das quais foi afastado – entre as quais a OEA (Organização dos Estados Americanos).
Lobo, eleito em novembro do último ano com a promessa de resolver o impasse, é alvo de críticas de grupos de defesa dos direitos humanos. Também enfrenta a pressão da oposição, que defende a convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte. Na última semana, pouco antes de viajar à África do Sul para acompanhar a Copa do Mundo, Porfírio Lobo disse ter conhecimento de uma conspiração para retirá-lo do poder, assim como ocorreu com seu antecessor.
Segundo o jornal Página 12, nesta segunda-feira (28), milhares de pessoas foram às ruas em todo país em repúdio ao golpe de Estado. No mesmo dia, a Anistia Internacional levantou denúncias contra o atual governo hondurenho por manter práticas de violação aos Direitos Humanos, como a responsabilização pelo assassinato de nove jornalistas em 2010.
Trabalhadores estatais, professores e estudantes formaram marcha em Tegucigalpa pela Frente de Resistência Popular (FNRP). Outras centenas de militantes do Partido Liberal, de Zelaya, também participaram da manifestação, mas não conseguiram chegar até a Casa de Governo, por causa do forte dispositivo de segurança instalado nas ruas.
No âmbito internacional, o Brasil e os países da Unasul (União das Nações Sul-Americanas), com exceção de Colômbia e Peru, resistem em aceitar a reincorporação de Honduras à OEA, de onde o país foi expulso após a queda de Zelaya. Os países exigem o fim do exílio de Zelaya e sua reincorporação à política, com garantias de que não haverá perseguição quando o ex-presidente retornar ao país.
Líderes sul-americanos também questionam a anistia concedida por Porfírio Lobo à cúpula militar, antes da conclusão dos trabalhos da chamada Comissão da Verdade, instalada há apenas um mês, para apurar as responsabilidades sobre os crimes ocorridos durante o governo golpista que afastou Zelaya.
O ex-presidente exige que seja permitida sua volta incondicional para Honduras e que o governo suspenda os processos contra ele. É acusado de atentar contra o sistema democrático de governo, com traição à pátria, abuso de autoridade e corrupção.
Porque Zelaya caiu
O político está hoje na República Dominicana, onde se refugiou com um salvo-conduto outorgado quando o presidente Porfirio Lobo assumiu o poder, em janeiro. "Esta é minha luta, nunca me rendo, e a única saída para Honduras é um novo acordo para o diálogo político e a convocação da Constituinte", disse.
Os planos de convocar uma Assembleia Constituinte foram o argumento dos golpistas para derrubar Zelaya do poder e expulsá-lo do país. Zelaya acabou voltando em segredo e se abrigou na embaixada do Brasil, em Tegucigalpa. Posteriormente, houve um acordo para a saída do político do país.
O presidente afastado atribui o golpe às medidas adotadas por seu governo, entre elas um plano para reaver a base militar americana de Palmerola (45 quilômetros ao norte de Tegucigalpa), para convertê-la em um aeroporto civil, e por assinar tratados de associação com a Venezuela e a Alternativa Bolivariana para as Américas (Alba).
Segundo o ex-líder, também pesou contra ele o fato de seu governo ter eliminado as políticas monetárias cambiais e salariais, com subsídios ao transporte e melhorias para os operários, "contradizendo as políticas de recessão do Fundo Monetário Internacional (FMI)", como explica Zelaya.
Zelaya também escreveu na carta que as medidas tomadas por seu governo permitiram que Honduras mantivesse suas reservas internacionais e o país conseguisse um nível adequado de crescimento dos programas sociais, em um quadro de crise internacional.

